16 set. 2026
Os mercados das matérias-primas alimentares continuam marcados por elevados níveis de volatilidade. Durante agosto, os preços do cacau voltaram a destacar-se pela forte valorização, enquanto trigo, açúcar, óleos vegetais e produtos lácteos evoluíram sob a influência de fatores climáticos, geopolíticos e da dinâmica global da oferta e da procura.
Para empresas de panificação, pastelaria e indústria alimentar, acompanhar estas tendências é fundamental para antecipar impactos nos custos de produção e preparar estratégias de compra mais eficientes.
O mercado do cacau voltou a entrar num período de forte volatilidade, com os preços a aproximarem-se das 5.000 £/t, um nível que não era observado há cerca de um ano. Esta evolução reflete a crescente preocupação com as perspetivas das colheitas na África Ocidental, principal região produtora mundial.
A situação é particularmente sensível na Costa do Marfim e no Gana, onde o fraco desenvolvimento das vagens, a pressão de doenças e o risco associado ao fenómeno El Niño estão a aumentar a incerteza sobre a próxima campanha. Ao mesmo tempo, a atividade especulativa dos mercados financeiros continua a amplificar os movimentos de preço.
Nos derivados de cacau, o cacau em pó tem registado uma valorização significativa devido ao aperto dos inventários e às preocupações relacionadas com a qualidade da próxima colheita. Em sentido contrário, a manteiga de cacau enfrenta alguma pressão devido ao aumento dos stocks disponíveis.
Os mercados do trigo mantêm-se relativamente sustentados, impulsionados pela redução da oferta nos Estados Unidos, pelas tensões geopolíticas e pelos constrangimentos logísticos em importantes rotas de transporte. Na União Europeia, os preços registaram uma subida próxima de 10% desde o início do conflito no Médio Oriente.
Os baixos níveis de água em rios estratégicos como o Reno, Mosela e Danúbio estão a dificultar o transporte de mercadorias, contribuindo para aumentar os custos logísticos. Paralelamente, episódios de seca e calor em várias regiões agrícolas continuam a gerar preocupação quanto à evolução das próximas campanhas.
Apesar destes fatores de suporte, o mercado continua a beneficiar de elevados stocks na Europa, de perspetivas favoráveis para algumas regiões produtoras e de colheitas robustas em países como Canadá, Roménia e Bulgária. Por esse motivo, não existem atualmente riscos imediatos de escassez, embora a tendência dos preços continue a ser de ligeira subida.
Os preços do açúcar continuam a apresentar uma trajetória volátil, mas com tendência de valorização. As atenções estão centradas nas perspetivas das futuras colheitas e no impacto das condições climáticas em vários mercados produtores.
Na União Europeia, os rendimentos da beterraba sacarina estão abaixo do esperado em importantes regiões produtoras de França e do sul da Alemanha, consequência das elevadas temperaturas e do stress térmico registado durante o verão. Esta situação ocorre num contexto de redução da área cultivada, aumentando o risco de uma oferta mais limitada na campanha 2026/27.
A nível global, a procura crescente para produção de etanol e as preocupações com o impacto do El Niño continuam a sustentar o mercado, apesar da existência de stocks relativamente confortáveis provenientes de campanhas anteriores.
Os óleos vegetais continuam a apresentar fundamentos favoráveis, mesmo num contexto de boa disponibilidade de stocks no curto prazo. A principal força motriz continua a ser o crescimento da procura ligada à produção de biodiesel, especialmente em mercados asiáticos.
No mercado do óleo de palma, os elevados stocks atualmente disponíveis ajudam a conter novas subidas imediatas de preços. No entanto, a possibilidade de redução da produção futura devido ao fenómeno El Niño continua a ser um fator de risco importante.
O óleo de girassol continua condicionado por constrangimentos logísticos associados ao Mar Negro, enquanto a colza beneficia da forte procura da indústria dos combustíveis renováveis. Já o óleo de soja permanece relativamente equilibrado graças à robusta produção norte-americana.
Após um período de maior instabilidade, os mercados dos produtos lácteos começam a mostrar sinais de maior equilíbrio. O leite em pó desnatado (SMP) continua suportado pela forte procura global de proteínas, enquanto as proteínas de soro entram gradualmente numa fase de normalização após os aumentos registados nos últimos anos.
Por sua vez, a manteiga e o leite em pó integral (WMP) mantêm uma evolução relativamente estável. Ainda assim, as previsões apontam para uma possível pressão moderada de aumento dos preços até 2027, especialmente se a procura global continuar a crescer.
A evolução das matérias-primas alimentares continua fortemente dependente das condições meteorológicas globais, das tensões geopolíticas e da evolução da procura internacional. Atualmente, o cacau mantém-se como uma das categorias mais expostas ao risco de volatilidade, enquanto açúcar, óleos vegetais e produtos lácteos poderão enfrentar uma pressão gradual de subida caso se confirmem as limitações na oferta previstas para os próximos meses.
Para os profissionais da panificação, pastelaria e indústria alimentar, acompanhar regularmente estes mercados será essencial para antecipar riscos, otimizar decisões de compra e aumentar a resiliência dos seus negócios.
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